A figura do pai, segundo José Tavares Cabral

“Paternidade humana, reflexo da paternidade divina”, a obra do jovem mestre em Teologia do Tarrafal, deu-se a conhecer em Assomada. Tomando por base a Exortação Apostólica “Amoris Laetitia”, do Papa Francisco, o autor reflete sobre a figura simbólica do pai na sociedade

 

Antes de mais, convirá dizer que “Paternidade humana, reflexo da paternidade divina” é um exercício de boa escrita e uma reflexão interessante sobre a ausência da figura simbólica do pai (e factica, também) nas sociedades atuais, principalmente quando falamos de um país – como é o caso de Cabo Verde – onde parte substantiva das crianças são órfãs de pai vivo.

Nesse sentido, vale por si o livro levado à estampa pela Paulus Editora com assinatura do jovem mestre em Teologia do Tarrafal de Santiago, José dos Santos Tavares Cabral.

Independentemente das convicções (ou ausência delas) religiosas de cada um, a obra, para além do português bem escrito, pauta as suas referências pela seriedade intelectual, pese embora (como, aliás, é natural) o engajamento do autor aos princípios vivenciais do catolicismo atual.

Novos desafios

Tomando por base a Exortação Apostólica Amoris Laetitia, do atual Pontífice de Roma, esta obra revela-nos uma circunstância: o “consulado” do Papa Francisco começa a produzir os seus primeiros intelectuais e um discurso filosófico-teológico novo, mais adequado aos novos desafios do povo católico.

Nesse sentido, é uma honra para Cabo Verde ver emergir o teólogo e intelectual José Tavares Cabral que, rompendo com o discurso recorrente e redutor, nos transporta a uma nova visão da realidade, marcada pela coerência e por um novo olhar dos católicos sobre este mundo em mudança, neste particular, para as questões que decorrem das novas circunstâncias da paternidade nas sociedades atuais.

A apresentação de “Paternidade humana, reflexo da paternidade divina” aconteceu na última sexta-feira, 08, enchendo literalmente o salão Nobre dos Paços do Concelho, em Assomada.

Num evento cultural, mas também teológico, a obra foi apresentada por Frei Gilson, o diretor de “Terra Nova”, um velho órgão católico de comunicação social com tradições únicas em matéria de defesa da liberdade em Cabo Verde.

Na presença do Cardeal Arlindo Furtado e dos presidentes da Câmara e da Assembleia Municipal, respetivamente, Beto Alves e Eurico da Moura, numa linguagem despretensiosa, Frei Gilson deu a sua visão sobre a obra e o seu autor.

Obra de grande relevância teológica

Começando por parabenizar José Tavares Cabral por ter sido o vencedor do Prémio Paulus 2018, Frei Gilson disse que esta distinção “honra” a Diocese de Santiago e Cabo Verde.

“«É Jesus que nos revela, pela primeira vez, Deus como Pai»” citou Gilson uma frase incerta no livro de Cabral, para concluir que “este livro já seria valioso, já seria um grande livro se ficasse por aqui e dissesse só isso” e considerando a obra de “grande relevância teológica”.

Mas bastaria ler uma pequena parte da obra, com alusão a um excerto de Amoris Laetitia, para se perceber o sentido geral do livro e as ideias centrais que o suportam:

“«O problema dos nossos dias não parece ser tanto a presença invasiva dos pais, mas, ao contrário, a sua ausência, o seu afastamento», escreve o Papa Francisco na Exortação Apostólica Amoris Laetitia. Esta questão da ausência simbólica da figura do pai na família pareceu-nos sumamente importante. Por duas razões: por um lado, perceber que o enfraquecimento desta figura desestabiliza a família e a sociedade, desestrutura os filhos, tirando-lhes o rumo, a segurança e a vontade de assumir um projeto de vida e, por outro, perceber que numa sociedade na qual o homem já não sente a beleza, a grandeza e o conforto profundo contidos na palavra pai, também estará em causa aquilo que é o fundamento e o horizonte último da fé cristã: a contemplação do Pai celeste - «mostra-nos o Pai, e isso não basta», diz Filipe a Jesus (JO 14.8).»

 

 

 


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