"Omi faka, mudjer matxadu, mininus tudu ta djunta pedra"

Cento e dez anos após a Revolta de Ribeirão Manuel, aqui se recorda o marco heroico da luta do nosso povo contra a exploração, pela liberdade e a justiça, sob a liderança da intrépida Nha Ana da Veiga

 

Passam hoje cento e dez anos sobre a revolta dos rendeiros de Ribeirão Manuel, liderados por Nha Ana da Veiga. Efetivamente, a 12 de fevereiro de 1910, os rendeiros da localidade recusaram-se a pagar as rendas aos morgados, passando a colher da terra, sem licença, as sementes de purgueira.

Pesem os anos de seca, com deficitárias colheitas, os morgados, manifestando insensibilidade e malvadez, decidiram agravar as condições de arrendamento, provocando a revolta dos rendeiros e fazendo ecoar em Santa Catarina e no interior de Santiago o grito de guerra que ficou para a posteridade: "Omi faka, mudjer matxadu, mininus tudu ta djunta pedra" (Homem faca, mulher machado, meninos ajuntam pedras).

Os terrenos da região eram parte do monopólio exclusivo dos morgados, que os administravam com mão de ferro, massacrando com rendas elevadas os que tinham sob sua responsabilidade o amanho das terras e sujeitando-os à mais vil exploração.

A revolta, propriamente dita, tem como epicentro o morgado Aníbal Reis Borges que apresentara queixa às autoridades contra um grupo de mulheres, alegadamente que teriam invadido a propriedade de uma sua irmã para roubar purgueira, planta utilizada para a produção de sabão e óleo e que, em Ribeirão Manuel, tinha o valor de moeda.

A repressão não se fez esperar e as autoridades investiram contra as mulheres acusadas, amarrando-as e provocando o protesto e indignação dos populares.

À cabeça dos protestos, ter-se-á perfilado o padre António Duarte da Graça, e o gesto do clérigo deu corpo à revolta comandada pela destemida Nha Ana da Veiga.

Tomando em mãos a organização do povo, Nha Ana da Veiga liderou a libertação das mulheres, marchando para a cadeia de Cruz Grande sob o lema "aqui não há negro, não há branco, não há rico, não há pobre... somos todos iguais!", não restando aos guardas, transidos de medo, abrir as portas e libertar todas as mulheres.

Assinalando a data histórica, a Câmara Municipal de Santa Catarina, ao mesmo tempo que restaurou o monumento da Revolta de Ribeirão Manuel, rebatizou o largo da localidade com o nome de Praça Nha Ana da Veiga, em homenagem à heroína da luta dos rendeiros contra a exploração, pela liberdade e a justiça.

Na próxima sexta-feira, 14, um ato público assinala a abertura da praça requalificada e o restauro do monumento, ao mesmo tempo que exalta a figura e o exemplo de Nha Ana da Veiga – uma heroína de Santa Catarina, de Santiago e de Cabo Verde.

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Fonte: WAALDÉ - Informativu Rinasensa Afrikanu (Informativo da Renascença Africana)

 

 


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